A polêmica de Indaiatuba: O que é ônibus novo (Zero Km) e o que é ônibus usado circulando por lá?

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Nos últimos dias uma avalanche contra a Rápido Sumaré, empresa que atualmente opera o transporte público da cidade de Indaiatuba, tomou conta das redes sociais. Tudo começou por conta do início da operação de um lote de 20 ônibus com uma nova pintura e um novo nome de empresa, denominado CITI – Companhia de Transporte de Indaiatuba. Há um embate muito grande na cidade pois a empresa diz que conta com o apoio da prefeitura no início da operação desses ônibus, e a prefeitura já soltou comunicado dizendo que não tem nada a ver com isso e ainda diz que mandou recolher os panfletos que estavam sendo distribuídos à população, explicando o “novo” nome da empresa. Já a população desconfiou desse novo lote e começou a divulgar nas redes sociais que tratam-se de mais ônibus velhos recauchutados. Na sexta-feira a direção da Rápido Sumaré divulgou comunicado nas redes sociais dizendo ser vítima de ataques mentirosos e publicou as notas fiscais das compras dos chassis e das carrocerias para provar que os 20 ônibus realmente são zero quilômetro.

Os 20 ônibus que começaram a rodar nos últimos dias em Indaiatuba realmente são novos, comprados zero quilômetros.

São 20 veículos novos comprados na Comercial Sambaíba, com chassis Mercedes-Benz e encarroçados na Marcopolo de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. As primeiras fotos divulgadas foram no pátio da fábrica, no final do mês de julho.

A prefeitura está andando com um processo que tem como objetivo caducar a concessão da empresa de ônibus por conta de dívidas e não cumprimento de várias cláusulas contratuais. A empresa tem dois meses para apresentar sua defesa e ao final do prazo, a prefeitura dirá se cassa a concessão da empresa e chama outra para operar emergencialmente até a abertura de outro processo licitatório ou se mantém a Rápido Sumaré operando.

A situação de Indaiatuba é bastante curiosa. Em outubro do ano passado, dois dias antes da eleição para prefeito, a Viação Indaiatubana, do empresário Ronan Maria Pinto, anunciou que estava vendendo as operações para o grupo da VB Transportes. De imediato a VB anunciou que iria fazer a compra de 20 novos ônibus e que faria grandes mudanças no sistema, com o objetivo de melhorar o serviço. Dias depois a população viu que tudo era apenas história. A VB levou para a cidade 11 ônibus velhos que haviam sido desativados de Guarulhos, onde também opera, para substituir parte da frota da antiga Indaiatubana. Curiosamente os ônibus que foram desativados eram mais novos que os amarelos velhos. A população, obviamente, reclamou e a assessoria da empresa teve o despautério de dizer que os “ônibus eram amarelos para identificar que eram movidos a biodiesel”, uma grande mentira deslavada. Por conta de uma forte pressão da população, a prefeitura determinou a substituição desses 11 ônibus no máximo logo após a virada do ano.

No final do ano passado, foi divulgado que os ônibus amarelos tinham essa pintura por serem “movidos a biodiesel”. Na verdade, essa pintura é do transporte municipal de Guarulhos, de onde eles vieram. Foram desativados de Indaiatuba no comecinho deste ano, após forte pressão popular.

A partir daí o grupo da VB começou a “juntar os cacos” e reuniu ônibus “menos velhos” de suas várias empresas, pintou-os de prata e levou para Indaiatuba. Chegaram ônibus de todos os cantos:
Ônibus de 2010 vindos da garagem da Rápido Luxo Campinas de Campo Limpo Paulista
Ônibus de 2012 vindos da garagem da Ouro Verde de Sumaré
Ônibus de 2011, 2012 e de 2013 vindos da garagem da Rápido Luxo Campinas de Valinhos
Ônibus articulados de 2012 vindos da garagem da Ouro Verde de Sumaré
Ônibus de 2010 vindos da garagem da Boa Vista de Hortolândia
Ônibus de 2012 vindos da garagem da Rápido Sumaré de São João da Boa Vista.

Os ônibus da Indaiatubana eram em sua maioria mais novos dos que os usados que chegaram recentemente. O veículo da foto é, no mínimo, de 2013, e foi substituído por veículos de ano 2010 a 2012.

O mais curioso é que a cada chegada de ônibus, os da antiga Indaiatubana eram devolvidos para o antigo dono, que os levaram para rodar em Santo André, onde mantém operações. Isso indica que houve mentira também na venda da empresa. Se a empresa realmente tivesse sido vendida, os ônibus antigos permaneceriam no grupo e seriam vendidos, e não devolvidos para o antigo dono. Tudo indica que o negócio foi meio “obscuro”, mais ou menos assim: a Indaiatubana repassou apenas a operação para o grupo da VB, que teria que devolver toda a frota assim que levasse uma frota própria. Funcionários confirmaram que os ônibus da antiga administração tinham data para serem devolvidos. Só que essa operação é ilegal, pois não pode-se simplesmente vender linhas, que são uma concessão pública. O grupo da VB acabou ficando com as linhas e com as dívidas da empresa, que obviamente não foram pagas. Tanto que a empresa até mudou: deixou de ser Indaiatubana e virou Rápido Sumaré, nome que está sendo usado em “novas” operações do grupo da VB. Os funcionários foram “transferidos” para a “nova” empresa a partir de julho. Curioso também é a empresa dizer que investiu mais de R$ 6 milhões na compra dos veículos usados. Os ônibus usados foram trazidos de empresas que já são do mesmo grupo, e não houve reposição das empresas de origem, ou seja, não gastou nada (a não ser com a tinta cinza, usada para pintar os ônibus), é um investimento “fictício”.

Esse ônibus é do ano de 2010 e foi remanejado da Viação Boa Vista de Hortolândia. Nenhum ônibus foi colocado no lugar lá.

O ônibus continua registrado na EMTU, ou seja, não teve seu registro baixado na empresa de origem.

O mesmo ônibus, quando circulava pela Viação Boa Vista.

Em meio a tudo isso, os novos ônibus prometidos em outubro do ano passado foram enrolando, cada hora com uma desculpa mais esfarrapada que a outra. Em dezembro do ano passado chegou-se a dizer que os veículos já estavam em produção, que “não se faz um ônibus como se faz um carro”, e que a produção demora mesmo, e que em fevereiro seriam entregues. Era mentira. Os chassis sequer haviam sido comprados. O grupo estava com sérias dificuldades para conseguir financiamento para a compra dos chassis e da carroceria, por isso o negócio demorou para ser fechado. No fim, resolveu-se criar uma “nova” empresa para tentar apagar as manchas que estavam cada vez piores na imagem da Indaiatubana/Rápido Sumaré.

O articulado era da Auto Viação Ouro Verde, de Sumaré, por isso a pintura amarela, que é da EMTU.

O veículo também continua ativo no cadastro da EMTU.

ÔNIBUS NOVOS MESMO? COMO IDENTIFICAR?
A questão principal é: os ônibus com o nome Citi são realmente novos? Sim, são novos, comprados a duras penas mas são zero quilômetros. Os veículos entraram em circulação às pressas pois o último lote da antiga Indaiatubana já estava com atraso e deveria ter sido devolvido no começo de agosto. Recebemos fotos dos veículos ainda na fábrica da encarroçadora Marcopolo em agosto. Para identificar o que é novo e o que é velho, basta ver o número de ordem dos ônibus: os que começarem com 17, realmente são novos. Os demais indicam o ano de fabricação dos veículos.

Esse veículo circulou pela Rápído Luxo Campinas nas linhas metropolitanas entre Valinhos e Campinas.

E também continua ativo no cadastro da EMTU.

O mesmo ônibus, quando circulava pela Rápido Luxo Campinas. O ano do veículo é 2012.

O processo para caducidade da concessão da empresa ainda está em andamento e deverá ter um desfecho em breve. Enquanto isso, a Rápido Sumaré, ou Citi, está pintando os demais veículos com a faixa laranja na frente para padronizar a frota. E já há um ônibus articulado velho pintado nas novas cores da Citi e deverá entrar em circulação em breve. Esse articulado é diferente dos amarelos que já rodam na cidade e já circulou pela cidade de Santo André. Vamos aguardar os próximos capítulos dessa longa história.

Esse veículo circulou pelas linhas municipais de Valinhos até o ano passado e é do ano de 2013.

O mesmo veículo, quando circulou em Valinhos.

Esse veículo é do ano de 2010 e circulou pelas linhas municipais de Campo Limpo Paulista, na empresa Rápido Luxo Campinas.

Esse veículo circulou pela Rápido Luxo Campinas nas linhas municipais de Vinhedo. Apesar do prefixo ser inicial 12, ele é do ano de 2013.

Esse veículo circulou pela Rápido Sumaré em São João da Boa Vista e tem o prefixo inicial 15, porém não é o ano real do carro.

Esse veículo circulou pela Auto Viação Ouro Verde nas linhas metropolitanas que pertenceram à empresa AVA, na região de Americana, Santa Bárbara D’Oeste e Nova Odessa.

E é mais um veículo ainda ativo no sistema da EMTU.