Anos 90

Foto retirada do livro “Trilhos e Linhas – História do Transporte Urbano Em Campinas”, de Marcos Pimentel Bicalho

A cidade entra na década de 90 com um grande projeto da prefeitura: municipalização do transporte coletivo. Com as linhas do Campo Grande nas mãos, a EMDEC inicia projeto de operar em outras linhas, até tomar toda a cidade. Comprou nesse mesmo ano 93 ônibus: 40 Padron Vitória Volvo, 3 Padron Vitória Volvo articulados e 50 Padron Vitória MBB-OH 1520, de 2 portas.

Como parte do projeto de retirar veículos particulares da região central da cidade para melhorar o fluxo de trânsito, a prefeitura coloca em circulação a linha 5.80 – Circular, mais conhecido como Bola Azul.

Operada com 2 carros articulados, partia da Rodoviária e dava uma volta pelo centro da cidade, passando por hospitais, terminais, etc. Essa linha era gratuita, e por isso andava sempre lotada.

No começo, a lotação era demais, já que a população queria ver a novidade de perto: um ônibus articulado, novidade na cidade na época.





A destruição maior ficou concentrada na região da Vila Rica, na descida da Amoreiras.

Apesar de tudo isso, a rotina de greves continua. Depredações de veículos são a marca desses movimentos. Em julho, um veículo que furava uma greve foi cercado por piqueteiros, apedrejado e alvejado por tiros. Os passageiros tiveram que se esconder atrás dos bancos para se proteger.

Mesmo assim, o governo de Jacó Bittar foi um dos melhores na área do transporte coletivo, mas enfrentou vários embates com a imprensa local e com os empresários de ônibus, já que a administração desagradava a esses setores.

Foi no ano de 1992 que a cidade registrou o maior número de passageiros de ônibus por mês da história, número imbatível até hoje: mais de 12,5 milhões de passagens/mês.

Foi Jacó Bittar que ainda introduziu o Passe escolar gratuito, o passe-passeio, que concedia catraca livre nos dias de vacinação e em um domingo por mês, além do passe popular, a famosa ficha marrom, com tarifa mais barata. Foi ainda no governo Jacó que começaram os testes para a implantação da catraca eletrônica.

 

As fichas do transporte público campineiro entre 1989 e 1993.

No início do governo, os tradicionais passes de papel foram substituídos por fichas plásticas, iguais às usadas em Curitiba, e a colorização ficou a seguinte:

  • Ficha marrom – Passe Popular
  • Ficha verde – Vale Transporte
  • Ficha rosa – Passe Escolar
  • Ficha azul – Passe Operário

Os isentos de tarifa entravam nos ônibus munidos de carteira da EMDEC. Apesar dessa troca dos passes de papel pelas fichas, a catraca eletrônica não havia sindo instalada ainda.

Mas outros fatos ainda iriam marcar o governo Jacó.

Em 1990, a Viação Campos Gerais abandonou a cidade, já que não tinha condições de renovar a frota, conforme exigência da prefeitura na época.




Assim, as suas linhas foram assumidas pela Viação Itacolomy, que entrou com a sigla VITA e cor amarela. Vários carros novos foram comprados pela empresa, em substituição aos antigos Ciferal Tocantins.

Durante o governo Jacó, o logotipo do Sistema de Transportes de Campinas nos ônibus foi substituído pela marca da prefeitura, com uma andorinha e os dizeres “Administração Popular de Campinas”.

Mais uma vez, em 1992, os empresários pediam o aumento da tarifa de ônibus.

E mais uma vez, a prefeitura negou. Assim, os empresários reagiram, e fizeram um nocaute de 11 dias, entre 13 e 23 de setembro. 200 ônibus foram retirados das ruas.

E a partir daí, a frota só caiu: de 746 carros, apenas 658 rodavam em março de 93. Apesar de tudo isso, Jacó Bittar entregou a cidade com a segunda frota mais nova do país e com o segundo melhor sistema de transporte do Brasil.

Magalhães Teixeira volta à prefeitura em 1993 e desmancha algumas coisas feitas pelo seu antecessor, como pôs fim aos passes-passeio e popular, começou a cobrar pela linha da Bola Azul (uma tarifa simbólica) e trocou várias linhas. No dia 25 de fevereiro de 1994, entrou em circulação, pela VITA, as linhas Interbairros 2, com os prefixos 2.80 e 2.81, que integrava todos os bairros da cidade, sem passar pelo centro.

No dia 5 de abril de 1994, os ônibus ganharam nova pintura: branco, com uma faixa azul e outra amarela, escrito “SIT Campinas”, que é a sigla do Sistema Integrado de Transportes, já que a cidade passaria a contar com um novo sistema integrado de transporte, através dos cartões magnéticos, que já estavam em teste.




No mesmo dia, entrou em circulação a linha 6.37 (Vila Campos Sales/ Vila Nova), que posteriormente foi passada à TUCA e teve prefixo 3.27. Em 19 de dezembro, a prefeitura entrega vários ônibus novos para a URCA, todos articulados. E não parou mais.

Em 18 de março de 1995, 30 novos ônibus foram entregues pela VISCA à população, para operarem na região do Campo Grande. A entrega foi feita exatamente um mês depois da EMDEC deixar de operar ônibus na cidade. Todas as suas linhas foram passadas à VISCA, com exceção à linha da Bola Azul, que passava a se chamar Circular Centro e seria administrada pela TUCA, com tarifa normal.

A EMDEC passa a ser apenas a gerenciadora do sistema. Em 1995, a Viação Itacolomy deixa a cidade, e todas as suas linhas são passadas à TUCA. Até o final de 1996, vários novos ônibus, com ênfase para os motores Scania e Volvo, foram entregues. Esses veículos davam maior rapidez no trajeto das linhas.

Chega 1997 e Francisco Amaral reassume a prefeitura. Começa aí a decadência do sistema campineiro de transportes. Ainda nesse ano, a VISCA entregou 20 novos ônibus: 6 Alpha, 10 Thor e 4 Mega. Depois disso, só briga. No dia 1 de novembro, começam as operações da catraca eletrônica na cidade. As 181 linhas da cidade são divididas em 15 grupos. No espaço de 70 minutos, o passageiro podia pegar um ônibus de cada grupo pagando apenas uma passagem. Assim, o valor da tarifa foi reajustado para R$1,15. Foi nesse ano que os perueiros começaram a chegar à cidade.

Com a ineficiência da prefeitura, os empresários deixaram de investir no sistema. Por consequência, os salários dos condutores e cobradores começaram a atrasar também. No dia 17 de julho, a prefeitura realizou a primeira apreensão de peruas ilegais na cidade. Mas no dia 9 de setembro, o então secretário de transportes, Amando Telles Coelho, anuncia que as peruas serão legalizadas. Os empresários começam a retirar ônibus das ruas.

É a partir daí que Campinas vira uma cidade sem lei. Com essa confusão dos perueiros, que cobravam 1 real a passagem, os ônibus também rebaixam o valor de suas tarifas para 1 real, mas acabam com a integração. Ao longo do governo Francisco Amaral, a passagem ficou congelada em 1 real, o que impediu novos investimentos no transporte.

No dia 20 de novembro, os perueiros entupiram a Avenida Anchieta de veículos, caotizando o já complicado trânsito da cidade. Enquanto isso, os ônibus, que estavam em greve, voltavam a rodar à tarde. mas a população, já cheia de tanta confusão, começou a quebrar tudo o que via pela frente. Dezenas de ônibus foram depredados pela população na Avenida das Amoreiras. No dia 12 de março de 1998, Campinas fica sitiada.

Foto retirada do livro “Trilhos e Linhas – História do Transporte Urbano Em Campinas”, de Marcos Pimentel Bicalho

Perueiros intermunicipais que pedem a legalização ao governo do Estado fecham as quatro entradas de Campinas: Via Anhanguera, Sistema Bandeirantes/ D. Pedro, Santos Dumont e Amarais. O trânsito da cidade se entope e ônibus seriam depredados se furassem a barreira. Eles chegaram de madrugada e só deixaram as estradas por volta das 14h. Campinas parou. No dia seguinte, o prefeito Francisco Amaral leva à Câmara dos vereadores o projeto de legalização do transporte “alternativo”, limitando o número deles na cidade: 500.

O projeto foi à votação na noite do dia 30 do mesmo mês, e foi aprovado. Na mesma hora, os motoristas que acompanharam a votação deixaram a prefeitura e pararam os ônibus que ainda estavam rodando. Realizaram um verdadeira quebra-quebra pela cidade e iniciaram uma grave que só acabou na noite do dia seguinte. A partir dessa, a cidade passou a ter uma greve por mês.




No dia 24 de novembro, uma nova greve de ônibus foi desencadeada. Ruas do centro foram fechadas e vias expressas também ficaram prejudicadas, por passeatas. Os motoristas ameaçavam parar as peruas na marra, mas a tropa de choque escoltava comboios de peruas. A greve acabou três dias depois. Campinas entrou em 1999 com a esperança de tempos melhores, mas viveu um dos piores anos de toda a sua história. Com a prefeitura falida, o prefeito não tinha como pagar os servidores em dia, o que desencadeou várias greves, praticamente mensais, que junto com os protestos dos ônibus, jogava a cidade no caos.

Na rotina do caos, uma nova greve foi iniciada no dia 7 de junho de 1999. Nessa mesma época, estavam em greve também os servidores municipais e os funcionários da Unicamp. Isso significava que Campinas estava apenas com um hospital público em funcionamento: o Celso Pierro, da PUCC. Várias passeatas marcaram as três greves, com caos no trânsito. Essa greve foi a segunda maior da história do transporte coletivo em Campinas e acabou só no dia 14. Apenas a Bortolotto rodou nesses dias, já que era a única empresa a honrar seus compromissos.

Novas greves mensais continuavam a ser realizadas, até o ano que vinha. Mais de 600 funcionários das empresas chegaram a ser demitidos e os cobradores foram retirados dos ônibus, passando a função para os motoristas. Ainda em 1999, a TUCA compra 10 novos ônibus. E só.

Apesar de toda essa bagunça, a prefeitura deu início à inauguração de cinco miniterminais de ônibus na cidade, que foram inaugurados na seguinte ordem, a partir de janeiro de 1999: Padre Anchieta, Vida Nova, Itajaí e Vila União. O do Jardim Carlos Lourenço jamais saiu do papel.

No final do ano, com a intenção de incendiar a guerra entre ônibus e peruas, a Viação Santa Catarina reativa o sistema seletivo de ônibus e coloca 20 micro-ônibus para rodar na cidade, com a mesma tarifa dos ônibus. Em 20 dias, 4 micros foram queimados pelos perueiros. No ano seguinte, todas as empresas passam a operar também no seletivo, com micro-ônibus, para concorrer frente-a-frente com as peruas.

 

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