Pets | Como lidar com cães que perderam seus tutores?

Parada, olhando para o horizonte, Nala espera Emiliano. A cena se repete com Nina, que aguarda Ricardo chegar no meio da noite, como faz há três anos. Nala e Nina desejam que seus tutores queridos – respectivamente, o jogador argentino Emiliano Sala e o jornalista Ricardo Boechat – voltem, algo que não pode mais acontecer, pois eles morreram recentemente em acidentes aéreos.

As fotos das cadelas à porta, compartilhadas nas redes sociais, emocionaram milhares e reacenderam dúvidas: é possível que os animais vivam o luto? E, se sim, como os humanos devem ajudá-los? Essas questões vinham sendo discutidas desde dezembro de 2018, quando Sully, o cão de companhia do ex-presidente dos Estados Unidos George Bush (pai), apareceu prostrado no velório do tutor.

O luto animal ainda é pouco estudado, mas há consenso de que bichinhos sofram tristeza pela ausência momentânea (no caso de viagens, por exemplo) ou permanente de alguém ou de algum pet próximo. Pesquisas também comprovam que os animais podem ter depressão. “A psicologia animal está investigando o tema, mas alguns sentimentos são entendidos como humanização: o luto é algo humano, de apego emocional após um elo construído. Nesse formato, não se conhece nada nas espécies animais, mas vemos que cães, gatos e até animais silvestres demonstram carinho e dependência e que, na perda do tutor ou do companheiro, podem ter depressão – esta, sim, uma patologia reconhecida, que pede tratamento psicoterápico”, diz a médica veterinária Fabíola Paes Leme.

Ela explica que cães abandonados também podem apresentar a doença, bem como os que lidam com a chegada de outro pet ou de um bebê a seu lar. “Há cães que, inclusive, morrem por depressão. Parece extremo, mas a dor do abandono traz efeitos físicos, e esse sofrimento é tão grande quanto o nosso”, diz.

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Ajuda. Para evitar que o quadro se agrave, é preciso manter atenção ao comportamento dos pets: além de ficarem apáticos, eles podem parar de brincar, comer menos ou não comer por dias.
Não há “cartilha” do que fazer para ajudá-los, já que cada animal tem suas peculiaridades, e muitos até saem do luto sozinhos. “Eu perdi minha cachorrinha mais velha há alguns dias, e a filhotinha dela ficou triste, começou a se esconder, parou de comer. Nessa fase, passei a levá-la para o trabalho alguns dias”, diz Fabíola, que também cita alternativas que simulem companhia, como manter o rádio ligado ou uma pelúcia.

Os especialistas explicam que a situação pode ser pior entre animais que nunca viveram sozinhos: foi também o caso de Elvis, cachorrinho da jornalista Letícia Damasceno, que perdeu seu irmão, Raul, por um mal súbito, em dezembro. Eles, juntos de outra cachorrinha, Nazaré, foram adotados com um mês de vida e conviveram por quase dez anos. “O Elvis ficou muito prostrado quando voltei pra casa sem o Raul. Ele teve dificuldade para voltar à vida normal, para comer. A fase crítica já passou, mas acho que até hoje ele não está normal, um pouco da alegria acabou indo. A Nazaré demonstra menos”, conta. Uma atitude que Letícia tomou, além de intensificar carinho e atenção, foi organizar uma viagem de férias em que pudesse incluir os dois pets, que aproveitaram a distração.

O adestrador da Leau Pet, Augusto Lavinas, defende a prevenção como melhor saída, mas também diz que, no geral, é importante manter a rotina do animal que ficou, inclusive deixando a mesma casinha que o pet dividia com o outro – o cheiro ajuda a manter a familiaridade. Por outro lado, ele defende mudanças pontuais. “A previsibilidade é importante principalmente para os cães, mas, se o cachorro fica esperando o tutor, como no caso do Boechat, é interessante colocar alguma coisa, tipo um passeio no horário”, ensina.

Ricardo Boechat se autodeclarava avô de Nina, que entrou na família em 2016; após sua morte, sua esposa, Veruska, revelou que a cadelinha segue à sua espera

Prevenção é a melhor alternativa

Agir antes da morte de um tutor ou de um pet que conviva com outros é a melhor alternativa para garantir que o luto animal não se prolongue. Quem defende isso é o adestrador da Leau Pet, Augusto Lavinas, que fala sobre a importância de estimular a individualidade do animal, sobretudo de cães, naturalmente mais propícios à dependência.

“A socialização é feita nos quatro primeiros meses do cão. Há estudos que mostram que nesse período ele deveria conhecer 150 pessoas, além de outros animais”, comenta. “Também é importante colocar desafios na sua rotina, como alimentá-lo fora da vasilha, no joão bobo, para ele ter uma dificuldade e aprender a lidar com frustrações, com perdas e mudanças”, explica.

Além disso, o tutor precisa criar hábitos para cada bicho, sair para passear só com um, levar ao veterinários sozinho: “Caso contrário, se um animal morre, todos vão sentir muito se faziam tudo juntos”, explica o adestrador.

Se o tutor mora sozinho com o cão, Lavinas também orienta que é importante anotar as brincadeiras e alimentos favoritos para que, “no caso de uma fatalidade, o animal não sofra com mudança, além da perda do tutor”.

Métodos aliviam dificuldades

Caso o animal não se recupere sozinho após a perda de um tutor ou de um companheiro animal, nem com a ajuda de outro humano, pode ser preciso procurar um especialista. Adestradores, terapeutas e veterinários utilizam diferentes métodos.

Quando houver a obrigação de mudança de residência do animal, por exemplo, o adestrador Augusto Lavinas sugere o uso de feromônios sintéticos – que dão a gatos e cães um odor familiar.
Terapias alternativas também geram alívio, conforme explica a médica veterinária Mariana Malacco, especialista em métodos como acupuntura e florais de Saint Germain. “Os animais, os tutores e o ambiente formam um sistema. Então, o tratamento não pode ser exclusivamente de um elemento, a gente precisa tratar cada item pra que tudo fique mais harmônico”, analisa.

“Algumas ferramentas muito benéficas são os florais. Eu uso o sistema de Saint Germain, que são medicações vibracionais que atuam nos corpos sutis dos seres. Outro método interessante é o Theta Healing, ferramenta quântica para acessar um campo energético do animal e identificar os pontos que estão dificultando a recuperação dele”, diz.

Porém, Mariana reforça a necessidade de experimentar o luto naturalmente. “Assim como todos os outros sentimentos, por mais dolorosos e difíceis de serem encarados, eles precisam ser vividos por nós e pelos nossos animais. Estamos aqui para ter experiências, e todas elas são importantes para a nossa evolução e a deles”, avalia.

Coisa de cinema?

Ficção. Em 2010, o longa “Sempre ao Seu Lado” registrou a história de Hachiko, um cão da raça akita adotado por um professor (Richard Gere), que, após a morte do tutor, segue esperando-o na estação de trem.

Realidade. O longa foi inspirado na história ocorrida no Japão em meados dos anos 20. Hachiko ganhou até uma estátua no país.

Sugestões de o que fazer se o animal…
– Não come a ração. Introduza alimentos mais úmidos ou petiscos. Caso a falta de apetite persista, procure um especialista.

– Fica antissocial. Aumente o carinho. Caso não possa estar presente, deixe uma pelúcia ou uma roupa sua na casinha e tente manter rádio ou TV ligados. A alternativa de adotar um novo pet deve levar em conta o comportamento natural do atual animal e do novo.

– Espera pelo tutor que morreu. Crie um novo hábito para aquele horário.

As informações são do jornal O Tempo.

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